domingo, 17 de agosto de 2008

Esperançar, não esperar


Aprendi com o educador Paulo Freire (1921-1997) que o exercício da
liberdade “tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da
responsabilidade”. Por outro lado, se a simples esperança não se traduzir em
uma práxis de transformação para a realidade, ela será uma mera espera vã. É
preciso, portanto, passar pelo mundo conscientemente e deixar o mundo passar
por dentro de nós imbuídos com uma mente alerta de uma consciência desperta.
Pragmaticamente, vida e experiência têm me feito esperançar a felicidade.
Recentemente fui perguntado se não seria a “felicidade”, proposta em meus
trabalhos e de minha equipe da Rede Lusófona de Estudos da Felicidade (Relus)
na Universidade de Fortaleza (Unifor), uma nova forma de utopia, a quem
respondi dizendo que felicidade tem sido um temática antiqüíssima, que nos
remete a 800 anos A.C, quando o poeta grego Hesíodo cunhou o vocábulo
eudaimôn, compreendido como o bom espírito (“eu”, bom, “daimon”, espírito), e,
séculos mais tarde, Aristóteles difundiu-o, chegando ao Ocidente na tradução
de “felicidade”, ou nas terminologias especializadas, “florescimento humano”.
Deste modo, a mesma “felicidade” vem sendo buscada, literalmente, há milhares
de anos, e parece-me que menos a encontramos, porquanto ela não esteja fora
do ser humano, ainda que, repetidas vezes, é no campo, a nós externo, que a
temos procurado ou esperado.
Ao contrário, esperanço a felicidade sustentado por minhas experiências de vida e
por um referencial teórico-metodológico da Psicologia Humanista, que
compreende a felicidade como um sentimento experienciado pelo ser humano
quando se permite viver a sua vida plenamente, realizando as potencialidades da
sua natureza (humana). Repito, a felicidade é uma experiência. Não estamos,
aqui, falando de crenças ou dogmas, mas de uma vida plenamente bem vivida e
feliz. Uma experiência, conforme definida pelo filósofo John Dewey (1859-1952),
como um certo processo de agir e padecer selado por emoção.
Se tomarmos a vida plena como sinônimo de “vida boa” na definição do psicólogo
humanista Carl Rogers (1902-1987) de quem falei no artigo da semana passada,
criador da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), compreenderemos, por este
conceito, um processo de liberdade psicológica dirigida em quaisquer das
direções, implicando em uma abertura crescente à experiência do organismo em
funcionamento total e uma redução contínua das atitudes defensivas (medos,
projeções e expectativas idealizadas, enrijecidas), para que possamos viver
plenamente cada momento de nossas vidas, como sendo efetivamente novo a

cada instante. Estas são pessoas completas que, nas palavras de Rogers,
estão “indo em direção ao conhecimento de suas experiências internas e em
harmonia com elas, e que percebam, sem atitudes defensivas, todos os dados
provenientes das pessoas e dos objetos de seu ambiente externo. Essas pessoas
constituiriam um fluxo de sabedoria em ação”.
Pessoas plenas, segundo Rogers, têm sido encontradas entre os executivos que
desistiram da competição em terno e gravata, da sedução dos altos salários e das
opções da Bolsa para viver uma vida mais simples; homens e mulheres jovens de
jeans que estão desafiando a maior parte dos valores da cultura atual e vivendo
de novas maneiras; padres, freiras e pastores que deixaram de lado os dogmas
de suas instituições para viver de uma maneira que faça mais sentido; mulheres
que estão lutando contra as limitações que a sociedade impõe à sua
individualidade e superando-as; os negros, os homossexuais, as minorias latinas
e os membros de outras minorias que estão se libertando de séculos de
passividade e caminhando em direção a uma vida assertiva, orientada
positivamente; aqueles que passaram por grupos de encontro e que estão
encontrando lugar para o sentimento e para o pensamento em suas vidas; e os
evasores escolares criativos, que estão tentando objetivos mais elaborados que
sua escolaridade estéril permite. Essas pessoas, principalmente a juventude e as
suas esperanças abordadas na edição de hoje, poderão tornar-se a corrente
transformadora de um futuro promissor.

Professor Francisco Cavalcante Junior

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